Os ricos querem ser sempre mais ricos, não há nenhuma novidade nisso. Também não é novidade que a maior parte dos donos dos 12 clubes fundadores (se não todos) não estão no negócio pelo prazer do jogo. Estão no negócio pelo negócio. Ponto.
Outra 'não-novidade' é que UEFA, FIFA e federações enriqueceram ao longo de todos estes anos sem grande esforço, à custa dos clubes, dos jogadores e dos treinadores sobretudo, mas não só. Como tal, fazem parte do problema, agudizado pelos vários casos de corrupção que fizeram abanar a estrutura do futebol mundial nos últimos anos.
A Superliga Europeia, que já não era uma ideia nova, era sim, mais tarde ou mais cedo, inevitável e ter-se-á precipitado porque os ricos não viram no novo formato da Liga dos Campeões hoje aprovado, mas já público há várias semanas, as reformas que entendiam necessárias para torná-los ainda mais ricos.
Na sequência, surge um reflexo totalitário de UEFA e FIFA, que está longe de ser o mais apropriado e que dificilmente ajudará. É necessário diálogo e não ameaças. Ainda mais quando se faz parte do problema e se deveria (pelo menos tentar) fazer parte da solução.
A Superliga Europeia está na cabeça dos dirigentes dos principais clubes continentais há muitos anos. A Liga dos Campeões como a conhecemos hoje é uma resposta a essa ideia. A nova Liga dos Campeões, aprovada hoje, será uma segunda resposta à mesma ideia ainda insatisfeita. Quem não se lembra das famosas reuniões do G-14 de 2000 a 2008 até que se transformou na Associação Europeia de Clubes (ECA), que agora, talvez por ter um âmbito bem mais alargado, se opõe à Superliga Europeia? A mesma ECA da qual se demitiu Andrea Agnelli e se autoexcluíram Juventus e Manchester United. O que mais foi o G-14 do que um grupo de trabalho para pensar em soluções para o próprio futuro como uma... Superliga Europeia?
O anúncio da Superliga é uma mensagem para que os seus fundadores, agora totalmente identificados - quando antes havia muitos na sombra - sejam levados a sério. Há várias questões limitativas da ideia, embora muitas a curto prazo, como a questão dos árbitros nomeados para esses jogos, por exemplo. A verdade é que nada impede, a médio ou longo prazo, os ricos de formar o seu produto em todas as vertentes, mesmo naquelas que não dominam.
Atenção! Este não é um movimento refratário qualquer, é um movimento refratário nuclear da elite. Sim, o Milan está longe da glória do passado, o Inter é muito inconsistente em termos históricos, a Juventus campeã das finais perdidas, o Manchester City é fenómeno recente e engordado a fundo perdido pelos Emirados, o rival United atravessa um deserto e por aí fora. No entanto, três fundadores são semifinalistas da atual Liga dos Campeões e o PSG só não o é porque não foi convidado. Mais, país por país, quem é que realmente falta da elite de Inglaterra, Espanha e Itália? Everton, Leicester ou West Ham? Sevilha, Villarreal, Real Sociedad ou Athletic Bilbao? Nápoles, Lazio ou Roma?
São as melhores equipas de três das Big Five - e se calhar as três com mais potencial, pela forma como já lideraram o mundo do futebol -, é um movimento com uma força brutal. Para os italianos, por exemplo, é uma forma de voltarem a aproximar-se do topo, depois de terem dominado o futebol na década de 90.
Percebe-se o interesse da Superliga em ter o Bayern, mas dificilmente o conseguiriam. Os alemães defenderam-se e ainda estão na mão dos adeptos, graças a regra 50+1 que existe para quem compete na Bundesliga e que, apesar das exceções criadas para empresas que há mais de 20 anos controlam um clube, casos de Bayer Leverkusen (Bayer), Wolfsburgo (Volkswagen) e Hoffenheim (SAP), e das dificuldades de controlar o Leipzig, face às muitas diferenças para o comum emblema alemão, tem garantido que os sócios e não as empresas mandem nos destinos dos seus clubes.
Estranha-se também que não tenha o Paris Saint-Germain, mas mais pelo lado dos parisienses, porque não sendo historicamente irrelevante não tem o peso dos demais. Ter um representante da liga francesa como o PSG valeria mais pela atração de Neymar e Mbappé no enriquecimento do produto, mas nem é certo que estes continuem por lá muito tempo. E se o craque brasileiro ficar será sempre um dano colateral aceitável.
Aos portugueses também ficará sempre bem dizer que respeitam às instituições e são contra, mas mesmo que fossem a favor não são de todo deste campeonato. A não ser que haja a tal preocupação mais representativa do continente. Não estar entre os maiores vai obviamente aumentar diferenças, sejam estas através de uma Liga dos Campeões que já era elitista ou de uma Superliga Europeia praticamente exclusiva.
É ainda mais imperativo negociar e aproveitar a contestação dos adeptos. Ou acham mesmo que ameaçar com a saída das ligas nacionais e com o impedimento dos jogadores de representar seleções chega? Do ponto de vista dos donos, será assim tão mau não ter jogadores nas equipas nacionais, ao serviço das quais arriscam lesionar-se e cansar-se? E não defrontar Huescas, WBAs, Crotones, ganhando até mais espaço para aumentar o número de jogos (e até clássicos e dérbis)? É assim tão mau trocar estes jogos que dão mais chatice do que dinheiro, em bilhética e comércio paralelo, por um Real Madrid-Liverpool ou qualquer outro emparelhamento possível? Desde que os clubes tenham a receita garantida, temo que as ameaças não sejam suficientes.
Mesmo a União Europeia já não conta para os ingleses depois do Brexit, embora possa pressionar os outros.
Pegar na ideia, apadrinhá-la e fomentá-la, mas também controlá-la - tornando-a mais representativa do espaço europeu e mantendo-a aberta e não fechada - poderia ser uma solução, embora já não se ultrapasse a ideia de derrota perante este anúncio. Subestimar o adversário é sempre péssima abordagem e, em pleno século XXI, UEFA e FIFA fizeram-no.
O futebol mudou e já não há retrocesso aparente. O caminho começou há muito a ser feito e aquele jogo que adorámos no passado e faz parte do que somos parece de um tempo demasiado distante. Quiseram torná-lo perfeito, agora elitista e morre a cada passo.
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LUÍS MATEUS é jornalista, analista e comentador de futebol. Foi diretor do MaisFutebol e editor de desporto da TVI, escreveu para o «Expresso», «Público» e zerozero, e comentou ainda para a TVI, Eleven Sports e TSF. Atualmente escreve e comenta no site e no jornal «A Bola» e n’A BOLA TV. Pode segui-lo no Twitter ou no Facebook.





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