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Madoff se foi, mas as pirâmides resistem

 


Morreu hoje, nos Estados Unidos, às vésperas de completar 83 anos, em 29 de abril, Bernie Madoff. Para quem não está ligando o nome à pessoa, lembro que ele ganhou fama como megainvestidor e ascendeu ao respeitável posto de presidente da Nasdaq, a primeira bolsa de cotações eletrônicas nos Estados Unidos (já nos anos 70). Mas Madoff usou seu prestígio para obter ganhos fáceis com a montagem de pirâmides financeiras.

Foi bem-sucedido durante algum tempo. Até que em 2008, durante a crise do sub-prime de julho-agosto daquele ano, que gerou a maior crise financeira mundial, sua pirâmide financeira não resistiu e veio abaixo como um castelo de cartas. Condenado em dezembro de 2009 a 150 anos pela maior fraude na história de Wall Street, com prejuízos de US$ 65 bilhões para cerca de oito mil investidores, morreu no Federal Medical Center, em Butner, na Carolina do Norte.

A tentação que leva celebridades como jogadores de futebol e atores globais a perderem R$ 170 milhões na obscura J.J. Invest, do improvável gestor Jonas Jaimovick só tem explicação na ganância misturada com estupidez. É razoável, quando a Selic rende menos de 0,4% ao mês (está em 2,75% ao ano e deve ir a 3,50% ao ano em 6 de maio), alguém prometer retornos de 5% a 10% ao mês? (ao ano já seria bom!). Pois a CVM vira e mexe pune emissões não registradas por “analistas de investimentos” sem credencial para tal, como J.J.

Se você quase caiu numa pirâmide ou conhece quem caiu, saiba que Madoff engambelou peixes graúdos de Wall Street e do circuito financeiro mundial. O Fairfield Greenwich Advisors, tinha US$ 7,5 bilhões aplicados, o Tremont Capital Management, US$ 3,3 bilhões, o Banco Santander, US$ 2,87 bilhões, o Bank Medici, US$ 2,1 bilhões, a Ascot Partners, US$ 1,8 bilhão e o HSBC, US$ 1 bilhão, entre outros menos conhecidos.

Em boa parte, usava sua boa imagem de grande filantropo da colônia judaica para arrebanhar novos investidores e assim fazer a pirâmide funcionar. Dos bilhões investidos com Madoff, o administrador nomeado pelo tribunal recuperou mais de US$ 13 bilhões de cerca de US$ 17,5 bilhões que os investidores investiram nos negócios de Madoff.

A tentação das pirâmides

    Em meus 49 anos de jornalismo econômico já escrevi sobre muitas pirâmides financeiras. No “boom” da Bolsa de Valores do começo dos anos 70, quando ainda não havia a Comissão de Valores Mobiliários (CVM, o xerife do mercado de capitais, que foi criado no fim de 1976, para fiscalizar a nova Lei das Sociedades Anônimas) e as ações não tinham registro eletrônico, era muito comum o roubo ou desvio de cautelas. Já reproduzi aqui no JB parte das memórias de Antônio Carlos de Almeida Braga (o Braguinha) na qual ele conta ter ganho dinheiro no começo da vida descontando os cupons de dividendos de ações que os clientes ricos deixavam para trás nos anos 50 e 60.

    Sem controle eletrônico, ocorriam barbaridades nas corretoras. Muita gente ficou rica desviando cautelas. Mas como a mentira tem perna curta, cedo ou tarde a verdade vinha à tona e a pessoa se queimava no mercado. A ganância pelo dinheiro e as promessas de ganhos fáceis levam pessoas a acreditar em terreno na Lua (hoje, com “venda” de passagens ida e volta ao nosso satélite, o golpe já cabe em história de ficção científica e isso levou um famoso pastor a criar ‘plano habitacional’ para venda de casa própria no céu). Bingo. Nos anos 70, operadores da BVRJ chegaram a “fazer” o lançamento de ações da SA Merposa (basta ler as sílabas iniciais separadas para perceber que a coisa não cheiraria bem). Houve compradores e ‘notícia’ em jornais.

    No auge do "open market", que era a negociação diária de títulos públicos (Letras do Tesouro Nacional de 91 a 365 dias e ORTNs de dois e cinco anos) para o Banco Central regular a liquidez do sistema financeiro, entrou no cardápio a utilização de Obrigações da Eletrobrás (empréstimos compulsórios cobrados de 1963 em diante de grandes consumidores industriais e comerciais) como lastro das operações do open Market.

    As OEs eram títulos de uma estatal (que o governo Bolsonaro quer privatizar) com resgate em 20 anos. Tinham correção monetária e juros anuais de 8% como as ORTNs de cinco anos. O atrativo eram os sorteios de resgate periódicos. Mas até que esses papéis entrassem como lastro de operações "overnight" ou de uma semana de resgate, muita gente não ligava para as contas de luz. Se nos tempos atuais se ganha dinheiro com reciclagem, nos anos 50, 60 e 70 se ganhava dinheiro garimpando “oportunidades” no mercado de capitais.

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